sábado, 14 de abril de 2012

Biografia - Parte IV

                                                         O Reencontro com Hannah

    Na Califórnia, Charles costumava pescar em Catalina na companhia de amigos, entre eles o médico inglês, Dr Cecil Reynolds. Depois de passar uns dias pescando,Charles recebe a notícia de que o estado de saúde de sua mãe havia melhorado e, assim, decidiu trazê-la para a Califórnia. Pediu a um amigo, Tom, que fosse a Inglaterra para acompanhá-la na viagem que ela faria de navio. Hannah foi colocada na lista de passageiros com um nome falso.Durante toda a viagem, manteve -se em estado absolutamente normal. Contudo, causou preocupação ao seu acompanhante, no momento em que, ao chegar a Nova York ,descobriram que aquela senhora miúda e magrinha era a Sra Chaplin e um funcionário da imigração a saudou: " Muito bem, Sra Chaplin! Imenso Prazer! Então a Sra é a mãe de nosso famoso Charlie"? Calmamente Hannah respondeu:" Sim. E o senhor é Jesus Cristo". O funcionário olhou surpreso para Tom e pediu que ambos aguardassem para serem liberados. Depois de algumas exigências burócraticas, o Departamento de Imigração permitiu a entrada de Hannah Chaplin nos Estados Unidos, com a condição de que ela tivesse seu visto de permanência renovado a cada ano e que não fosse onerosa ao país.
      Charles e Hannah não se viam por 10 anos. Ele e Sydney haviam preparado tudo para receber a mãe.Ela viveria perto deles, num bangalô, na companhia de um casal que cuidaria da casa e de uma enfermeira diplomada, contratada para cuidar exclusivamente dela.Todas as noites, Hannah recebia a visita dos filhos que costumavam jogavam com ela. Durante o dia, ela fazia piqueniques e passeios em seu carro e algumas vezes, era levada ao estúdio, onde Charles lhe exibia suas comédias.
                                                  De volta à terra natal




   O enorme sucesso de O Garoto não aplacou a preocupação de Charles com relação a seu trabalho. Ele ainda deveria produzir mais quatro filmes para a First National.Buscando idéias para realizar alguma coisa, andava pelos galpões da contra-regra do estúdio, entre restos de velhos cenários, desejando encontrar um objeto que o inspirasse. Quando finalmente seus olhos bateram nuns tacos de golfe, surgiu a idéia de levar o Vagabundo a praticar aquele esporte. Foi ali que nasceu The Idle Class ( A Classe Ociosa), onde o personagem acaba entrando numa festa à fantasia, misturando-se aos convidados ricos caracterizados como vagabundos. Assim, confundido com um ricaço, decide gozar de todos os prazeres da vida dos milionários.
A Classe Ociosa
    Depois de completar seu trabalho, procurou realizar um outro filme, mas não sabia o quanto estava cansado.As idéias não brotavam como desejava e, nos últimos meses, passara a sentir um grande desejo de visitar Londres.Um dos motivos para aquela viagem era rever Hetty Kelly, sua primeira paixão de adolescente. Recebera uma carta dela. Estava casada e queria saber se ele gostaria de vê-la, caso fosse a Londres. Havia se passado 10 anos desde que se encontraram pela última vez. Charles considerou que " nesse espaço de 10 anos, eu me havia apaixonado várias vezes e esquecido os meus afetos outras tantas". mas estava decidido a ir a Londres . E a visitar Hetty!
    Assim,tomou um navio rumo à sua terra natal. A bordo, lia os jornais que recebia pela manhã em sua cabine.
     As manchetes anunciavam a sua volta, prometendo uma recepção estrondosa ao " filho" que regressava ao lar. Mas alguma notas sobre Charles também o criticavam por estar de volta ao aeu país tanto tempo depois, deixando de estar presente na época da guerra, preferindo fazer " palhaçadas diante de uma câmera" do que empenhar uma arma em "máscula peleja".
    Quando o navio atracou no cais de Southampton, Charles foi levado às pressas para o trem rumo a Londres. No compartimento do trem, encontrou-se com Arthur Kelly, irmão de Hetty. Ao informar que havia recebido uma carta dela, convidando-a para um jantar em sua casa, Charles recebe a notícia de que ela havia morrido recentemente. Sentiu-se chocado. " Hetty era a única pessoa amiga do passado que eu gostaria de reencontrar, sobretudo em circunstâncias tão fantásticas"...
     Chaplin só tomou ciência da extensão de sua popularidade internacional ao chegar em Londres. Charles Chaplin, o menino mal vestido que havia abandonado a escola e usado suas garras para sair das favelas de Londres,retornou triunfalmente à sua terra natal, onde foi aclamado por uma multidão ansiosa para ver seu ídolo pessoalmente.
                                                       De volta a Londres, 1921
                                                      No meio da multidão
     Em Londres, de vez em quando, ele conseguia deixar o hotel, pela porta dos fundos, para visitar incógnito, os lugares onde passara sua infância e adolescência.
     Muito se escreveu sobre a profunda melancolia e a propensão ao isolamento que acometiam Chaplin, mas ele considerava isso uma grande tolice, declarando que gostava da companhia de amigos, quando estava com disposição para estar com eles. Alternando períodos de extroversão e introversão, neste último estado de ânimo queria ficar sozinho, longe de aglomerados de amigos e conhecidos. Ainda na Europa,esteve na França e na Alemanha.
   Em Paris, também foi recebido de maneira majestosa. Mas em Berlim se decepcionou. Ali ele ainda não era bem conhecido, já que a guerra havia atrasado a distribuição de seus filmes na Alemanha.
   De volta a Hollywwod, foi visitar Hannah e encontrou-a muito bem, feliz ao saber sobre como ele fora bem recebido em Londres.
   Nos dois anos seguintes, Chaplin produziu Pay Day( Dia de Pagamento) em 1922 e The Pilgrim( Pastor de Almas) em 1923.
Stills: Pay Day
Com Edna Purviance em Dia de Pagamento

Stills: The Pilgrim
Chaplin, o Pastor de Almas

Charles na United Artist
     Finalmente Charles terminou seu contrato com A First National. Poderia, então, trabalhar na nova empresa, a United Artist, que formara em sociedade com Douglas Fairbanks, Mary Pickford e D.W. Griffith.

Douglas, Mary, Chaplin e D.W. Griffith na United Artist
    Convidado por um amigo para um jantar oferecido a escultora Clare Sheridan, sobrinha de Winston Churchil,esta combinou com Charles de fazer o busto dele. Clare foi a primeira inglesa a entrar na Rússia, depois da revolução, para fazer bustos das principais figuras do partido bolchevista, como Lenin e Trotsky.Assim, em sua casa, Chaplin posou, por vários dias, depois do almoço até a tardinha.
Chaplin em escultura
     Em Hollywood continuava a ser um solitário.Trabalhando em seu próprio estúdio, tinha pouca oportunidade de fazer novos amigos, entre os que trabalhavam em outros estúdios. Sua salvação em matéria de convívio eram Douglas Fairbanks e sua então esposa, Mary Pickford.
        Aos que comentavam sobre sua personalidade tristonha, Charles declarou em sua autobiografia: " Já se escreveu muita tolice sobre minha profunda melancolia e propensão ao isolamento. Eu não precisava talvez de tantos amigos como eu tinha- a celebridade os atrai indiscriminadamente. Gosto da companhia de amigos como gosto de música- quando estou em boa disposição para isto... Daí estes artigos sobre minha índole retraída, arredia e incapaz de verdadeira amizade.Bobagem. Possuo uns poucos amigos excelentes que me alegram a vida. Estar com eles é coisa que quase sempre me encanta".
      Somerset Maugham, romancista e dramaturgo, escreveu, certa vez, a sobre a personalidade de Chaplin: " Charles Chaplin...Diverte-nos com sua graça leve,simples, espontânea. Todavia, sempre causa a impressão de que traz no íntimo uma profunda melancolia... Não dá idéia de ser um homem feliz. Desconfio que sente a nostalgia dos cortiços. A fama de que desfruta e a sua riqueza o condenam a um estilo de vida que o constrange"...
    Chaplin reagiu a este comentário desabafando, mais tarde:" É desagradável essa história de atribuir-se a outrem, encantamento pela penúria que enfrentou. Ainda não encontrei um só pobre que sentimentalize a pobreza ou que nela encontre libertação. Nem poderia o Sr Maugham convencer a nenhum necessitado de que fama e grande fortuna são motivos de constrangimento... Nunca achei a pobreza atrativa nem edificante. O que ela me ensionou foi só uma distorção de valores, a superestimar as virtudes e os refinamentos dos ricos e das pretensas elites sociais... eu sou o que eu sou... com uma história em que se encadeiam tendências e impulsos ancestrais: uma história de sonhos, desejos e de experiências próprias, sendo eu a soma de tudo isso".
       Seu primeiro trabalho para a United Artist foi A Woman of Paris( Casamento ou Luxo), em 1923 foi o último a ser estrelado por Edna Purviance.
      Charles inspirou-se na história de vida de uma famosa beldade que surgira em Hollywood- Peggy Hopkins Joyce - conhecida por casa-se r com milionários para arrancar dinheiro deles no divórcio. Ela tentou o mesmo com Chaplin, mas quando viu que ele não estava interessado  nela, se afastou para buscar  outras presas. E Charlie ganhou uma história às suas custas. O filme foi sucesso apenas entre a platéia mais refinada. Chaplin aparece em cena rapidamente, não como o Vagabundo, mas no papel de  um carregador de malas numa estação de trem. E, assim, experimenta seu primeiro fracasso comercial, já que o público não comparece para assistir um filme de Charles Chaplin sem seu mais célebre personagem.
Stills: A Woman Of Paris
Edna Purviance em Casamento ou Luxo
    Algum tempo antes de  Charles terminar A Woman of Paris, a atriz Pola Negri surgiu em Hollywood.Charles havia se encontrado com ela, pela primeira vez,em Berlim. Por isso, sentiu-se surpreso  e lisonjeado quando, ao revê-la, num concerto sinfônico no Hollywood Ball, ela lhe perguntou porque não havia lhe telefonado antes, já que viera a Hollywood só para vê-lo. Logo começariam os rumores a respeito de um possível relacionamento amoroso entre Charles e Pola.
Pola e Chaplin jogando golfe
Pola Negri e Chaplin anunciando seu noivado à imprensa,
 em 28 de janeiro de 1923
    Depois da decepção com seu primeiro trabalho na United, Charles ansiava por fazer algo que tivesse o mesmo sucesso de O Garoto. Queria fazer uma comédia, mas as idéias não lhe apareciam facilmente. " Na criação de comédia, por mais paradoxal que isso pareça, o senso do ridículo é estimulado pela tragédia; pois o ridículo, creio eu, contém um desafio: devemos rir de nosso desamparo na luta contra as forças da natureza... para não enlouquecer".
      Para realizar seu próximo filme, Charles baseou-se num livro que havia lido sobre um grupo de imigrantes que, à procura de um lugar ao sol no Oeste da América, vê o trem em que viajavam ser bloqueado pela neve nas montanhas de Sierra Nevada. Dos 160 pioneiros, só 18 conseguiram sobreviver à fome e ao frio. Uns praticaram o canibalismo, comendo os cadáveres dos companheiros e outros assando seus sapatos para saciar a fome.
     Evocando aquela tragédia, Charles produz The Gold RushEm Busca do Ouro), onde o vagabundo vai tentar a sorte no Alasca, na "febre do ouro" , em busca da riqueza e felicidade.
      Durante as filmagens, Charles casa-se pela segunda vez.Sobre este casamento, Charles não forneceu maiores detalhes em sua autobiografia. " Não entro em pormenores, porque temos dois filhos que adoro. Ficamos casados por dois anos e tentamos continuar, mas não houve jeito e tudo acabou com muita amargura", citou Charles em seu livro. Contudo, sabe-se que sua segunda esposa chamava-se Lillita McMurray. Ela  e sua mãe  sempre confiaram na estratégia tática de uma gravidez para conseguir um casamento forçado . Desta feita  o escolhido  foi um Chaplin muito menos crédulo e muito mais desconfiado. Lillita havia participado do filme O Garoto quando tinha 12 anos, interpretando o papel de um anjo.
Lillita em O Garoto
    Antes de completar 16 anos, foi contratada por Chaplin, em março de 1924. Por sugestão dele, ela recebeu o nome artístico de Lita Grey.

Lillita assinando contrato com a United Artist 
   Chaplin buscava uma nova protagonista para substituir Edna Purviance e sentiu que Lita  era perfeita para o papel que idealizara. Iniciou-se um romance entre os dois. Durante as filmagens de Em Busca do Ouro, Lita engravidou, sendo substituída pela atriz Georgia Hale. Charles decidiu se casar com Lita. Mais do que por amor, a decisão foi movida pelo receio de ser condenado e preso por manter relações sexuais com uma menor de idade. Assim por partiu com Lita para o México, onde se casaram em  26 de novembro de 1924. Ela tinha 16 anos e ele, 36.
Charlie married Lita Grey in Empalme, Mexico on November 26th*, 1924. The photo shows the newlyweds at a train stop in Shorb, CA the following day. 
According to Lita, the depressing ceremony was performed early in the morning by a justice of the peace who spoke no English. Those in attendance were Chaplin’s valet, Toraichi Kono, his lawyer, Nathan Burkan, members of Lita’s family, and Charlie’s friend, Chuck Riesner, who had tears in his eyes as he watched the ceremony. Lita, who was 3 months pregnant, was also suffering from morning sickness.
Afterward, the wedding party gathered for breakfast, but Charlie was not in attendance. Lita did not see him again until that evening. At one point, she overheard Charlie tell his entourage, “Well, boys, this is better than the penitentiary but it won’t last long”.
Later that evening, Charlie joined Lita in the drawing room of the train as they headed back to Los Angeles. She was not feeling well and Charlie led her outside to get some air. While they stood on the platform, Charlie said to her, “we could put an end to this misery if you’d just jump.”
Obviously, the marriage of Charlie and Lita did not begin well, and it certainly didn’t end well.
(*I’m unsure of the exact date of their marriage. The David Robinson bio  and other sources give November 26th, while Lita’s book & divorce complaint  give November 25th.)
To “celebrate” Charlie & Lita’s anniversary, all of my posts today will be about them.
Charles e Lita no dia seguinte ao seu casamento
    Em Busca do Ouro foi o filme de Chaplin que lhe deu maior renda.Seu orçamento foi também um dos mais caros.
   Cenas como a famosa dança dos pãezinhos e de um faminto Vagabundo saboreando suas botas-feitas de alcaçuz, por um confeiteiro especializado- são consideradas uma preciosidade entre os trabalhos de Charles Chaplin.
Saboreando suas botas
  
Dirigindo uma cena do filme Em Busca do Ouro
Stills: The Gold Rush
Charles, o diretor, por trás das câmeras
     Em Busca do Ouro foi lançado no Strand Theatre, em Nova York e rendeu, nada menos que 6 milhões de dólares. Após a estréia, em seu quarto do Hotel Ritz, Charles se sentiu mal e telefonou a um amigo, pedindo-lhe que chamasse por seu advogado, pois desejava fazer seu testamento. O amigo chamou os dois, mas só o médico atendeu, já que seu advogado se encontrava na Europa. Examinado, foi constatado que tivera uma crise nervosa, sendo recomendado a sair do calor de Nova York.Charles passou dois dias descansando em Brighton Beach. Quando se sentiu melhor, voltou a Nova York.
    A realização do filme foi de dezembro de 1923 a maio de 1925. Charles Spencer Chaplin- segundo filho de Charles Chaplin  e o primeiro com Lita Grey - nasceu em 5 de maio de 1925. Dez meses depois, em 31 de março de 1926, Charles e Lita se tornaram pais mais uma vez, com o nascimento de Sydney Earle Chaplin.
Charlie, Lita e Sydney
Charles entre Charles Jr e Sydney
     O casamento de Charles e Lita terminou em 22 de agosto de 1927. O divórcio foi um dos mais sensacionais eventos da época e também um dos mais lucrativos na história americana. Chegou a ser considerado a " segunda busca do ouro"
.    Penosamente recordando  suas duas primeiras experiências - com Mildred Harris e Lita Grey - Chaplin mais tarde disse: "O casamento é a morte mais rápida da individualidade do homem." Quanto à questão de Charles ter ou não se aproveitado de uma adolescente que largara a escola,  o comediante Will Rogers, brincou: "Esta menina não precisa de ir à escola. Qualquer garota inteligente o suficiente para se casar com Charlie Chaplin pode fazer palestras na Universidade de Vassar sobre "Como se Aproveitar das Suas Oportunidades". Recordando o início de seu romance com Chaplin , anos mais tarde, Lita declarou: "Eu não tinha idade suficiente nem era brilhante o suficiente para saber o que os sentimentos que eu tinha para com ele tinham a acrescentar. O que uma menina bonita, de 15 anos,com uma conversa de quinze anos poderia ter que interessasse a ele"?Chaplin lembrava-se que "sua mãe deliberadamente e continuamente colocava Lita no meu caminho. Ela incentivou as nossas relações."
       Quando sua vida pessoal deteriorou-se , transformando-se em um caótico circo, Chaplin tentou recuperar seu impulso criativo e lidar com seu profundo sentimento de humilhação ,filmando The Circus ( O Circo) em 1928. O enredo do filme se direcionava para a sua ansiedade artística causada pelas pressões para que ele se tornasse engraçado, Naquele momento, após seu divórcio, ele via sua vida pessoal sendo explorada por uma notória pubicidade negativa. A peça central em O Circo consiste na sequência de um pesadelo em que Chaplin — um palhaço de circo - involuntariamente se ridiculariza em público, ao ser apanhado com suas calças arriadas. Em sua atuação na corda bamba,  Carlitos, a suposta estrela do show, é atacado por macacos que lhe rasgam a calça enquanto o público, chocado e aterrorizado,assiste como ele balança, tentando executar seu número de equilíbrio, com suas calças nos tornozelos (e sem rede de segurança para protegê-lo).
Stills: The Circus
Chaplin em O Circo
Stills: The Circus
Charles em apuros numa jaula
Charles, no piano, executando parte da trilha sonora
do filme O Circo
     A atriz protagonista de O Circo foi  Merna Kennedy que havia sido apresentada anteriormente a Chaplin por sua amiga Lita Grey. Merna era dançarina  e suas pernas musculosas a ajudaram a fazer, no filme, a cena em que se equilibrava sobre um cavalo.
Merna Kennedy
Stills: The Circus
Carlitos dividindo sua comida com a equilibrista, em O Circo
        Este filme deu a Chaplin o seu primeiro prêmio da Academia (ainda não  chamado Oscar). Ele  lhe foi entregue na primeira cerimônia de apresentação, em 1929. Um prêmio especial por sua versatilidade e genialidade  como autor, ator, diretor e produtor. O filme certamente mereceu aquela honraria . Ele contém algumas das melhores invenções cômicas de Chaplin,sutilmente equilibradas com boas doses de sentimentalismo. Mas, paradoxalmente, porém, é o único filme de suas produções  sobre o qual  Chaplin não menciona, uma única vez, em sua extensa autobiografia. Parecia que aquele foi um filme  de que ele preferia esquecer.
Carlitos se exibe para a equilibrista
      A razão não foi o filme em si, mas as circunstância profundamente preocupantes duran-te a  sua realização. Os advogados de Lita, buscaram todos os meios para arruinar a carreira de Chaplin, tentando manchar  sua reputação. No auge da batalha jurídica, Charles teve que interromper, por 9 meses (de 5 de dezembro de 1926 a 3 de setembro de 1927), as filmagens, já que os advogados  de sua ex-esposa tentaram  se apossar de objetos do estúdio.Chaplin foi forçado a esconder seus filmes num local seguro.
      Como se seus problemas domésticos não fossem suficientes, o filme parecia destinado a um fim catastrófico.
Cabelos mal tingidos 
(Em decorrência dos inúmeros problemas pessoais que
enfrentava, durante as filmagens de O Circo, os cabelos grisalhos de Chaplin
tornaram-se quase totalmente brancos. Ele recorreu à tintura para escondê-los, mas nesta foto pode se notar que o trabalho não foi bem feito).

 Mesmo antes das filmagens começarem, a grande  tenda do circo, montada no estúdio, foi destruída pelos ventos fortes.
No centro do estúdio, a tenda de O Circo
       Depois de quatro semanas de filmagens, Chaplin descobriu que o trabalho de laboratório  não havia  ficado bem feito, prejudicando grande parte da filmagem. E, para piorar toda aquela situação desgastante, um incêndio no estúdio, destruiu peças dos cenários e vários adereços.
       Durante as filmagens de O Circo, mais um golpe abate Charles Chaplin. Hannah teve uma crise de vesícula, necessitando ser internada.Ela já apresentara o problema antes, mas se havia se recuperado. Desta vez, os médicos previniram a Charles de que o caso era grave e ela não poderia ser operada por causa da frágil coração.
 .    No dia seguinte,28 de gosto de 1928, quando se encontrava em seu estúdio, Charles recebeu a notícia de que sua mãe havia falecido.Ela havia completado, 17 dias antes, 63 anos. Sydney que se encontrava na Europa, enfermo, não pode comparecer ao funeral.
 Hannah Chaplin por volta de 1925
Mãe e filho
   Sobre sua mãe Charles diria, tempos mais tarde: " Apesar da miséria em que fomos forçados a viver, ela manteve Sydney e eu fora das ruas e nos fez sentir que não éramos produtos comuns da pobreza, mas  seres únicos e dintintos".
    Embora a causa médica fundamental da doença de sua mãe não fosse a exaustão de trabalho, a inanição ou desnutrição crônica — todos os três fatores , sem dúvida, contribuíram para seu colapso emocional. Por razões que são completamente compreensíveis, Charlie Chaplin manteve-se calado sobre a real causa de psicose crônica de Hannah (que continuou por muitos anos depois, quando ela já não mais necessitava teve que lutar para ganhar a vida ou encontrar comida).De acordo com seu amigo pessoal e confidente Jerry Epstein, Charles estava totalmente ciente a respeito da misteriosa condição médica de sua mãe.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Biografia - Parte V

                                                          Surgem os Fimes Sonoros
           Algum tempo depois, um amigo contou a Charles que havia assistido a experiência de sincronização do som nos filmes, considerando que aquilo seria, em breve, a revolução da indústria cinematográfica.

        Charles só voltou a pensar no assunto meses depois, quando a Warner Brothers produziu seu primeiro filme falado. Ao assitir ao filme, Charles percebeu a má qualidade do som. Nada se sabia sobre o controle sonoro, naquela época. Mas o filme deixou Charles com a certeza de que os dias do cinema sonoro estavam contados. Mas, um mês depois, a MGM produziu Melodia da Broadway, um musical de longa metragem, muito simples e enfadonho, mas que teve enorme sucesso de bilheteria. De um dia para outro, todos os cinemas começaram a equipar-se para exibir filmes sonoros. Tinha início o crepúsculo dos filmes silenciosos. Contudo, Charles decidiu que continaria a fazê-los. Afinal, era um ator pantomimas e "nesta arte, único e, sem falsa modéstia, um mestre", comentou ele.


  Assim, deu prosseguimento ao filme que estava produzindo - City Lights Luzes da Cidade), na certeza de que sempre havia lugar para todos os gêneros de entretenimento.
Com os produtores voltados para o sucesso dos filmes falados, Charles se sentia colocado de lado. Com a chegada dos filmes sonoros, os atores haviam esquecido a arte de fazer mímicas e foi muito difícil ele encontrar uma atriz que conseguisse dar à  fisionomia, a expressão de uma cega, que seria a vendedora de flores protagonista do filme. 
Charles entrevistou muitas candidatas , mas a maioria olhava apara cima, exibindo  o branco da córnea , o que, em sua opinião causava uma imprensão desoladora.
   Caminhando pela praia de Santa Monica, deparou-se com um grupo de atores que filmava ali.Charles viu belas moças.Uma delas acenou para ele e perguntou-lhe quando iria trabalhar com ele. Era Virginia Cherril a quem Charles já conhecia. Seria ela a atriz escolhida.


                                                           
                                                                         Virginia Cherril

     Charles ficou mais de um ano produzindo Luzes da Cidade. Sua mania de perfeição fazia com que as cenas fossem filmadas e refilmadas até que saíssem como ele desejava. Assim, na parte em que Carlitos compra uma flor para colocar em sua lapela e a deixa cair no chão, ao esbarrar na florista, e ele percebe que ela é cega, a cena, que dura apenas 70 segundos, foi filmada e refilmada por 5 dias!

Stills: City Lights
Charles e Virginia em Luzes da Cidade

Assim que terminou o filme, Charles começou a busca um fundo musical para inserir ali. Uma das vantagens dos fimes sonoros era permitir que se escolhesse a música e Charles compôs a que usou em seu filme. Procurou uma música delicada e romântica, em contraste com seu tipo vagabundo, pois a música suave dava a seus filmes um toque de emoção. Quando concluiu a sincronização do som, organizou uma pré-estréia no cinema.
        Foi um a terrivel experiência. A platéia estava meio vazia. O público esperava um drama e não uma comédia e, só depois da metade do filme é que se refaz da decepção. Mas mesmo assim, muitas pessoas se levantaram e saíram antes do filme terminar. Quando Charles deixou a sala, estava certo de que havia jogado fora quase dois anos de trabalho e 2 milhões de dólares. De repente, se lembrou de que o filme ainda não hava sido vendido. Naquela altura, todos os cinemas estavam com sua programação contratada e ele deveria esperar pela sua vez. O único espaço disponível era o Teatro George N. Cohan com 1150 lugares. Não era uma verdadeira sala de cinema, mas Charles arriscou 7 000 dólares semanais pelo aluguel, com garantia de 8 semanas de locação, cabendo-lhe ainda fornecer gerente, bilheteiros, indicadores de poltronas, operadores e auxiliares.
       No dia de sua estréia em Nova York, em 1931, Luzes da Cidade recebeu, em sua apresentação, a família de Einstein. Charles percebeu que, no decorrer da última cena, Eisntein enxugou os olhos. O filme foi um sucesso e Charles partiu para Nova York, sem esperar as críticas da imprensa. Lá, descobriu que toda a propaganda do filme se resumia a um pequeno anúncio: " NOSSO VELHO AMGO CHARLIE ESTÁ DE VOLTA". Charles, então, colocou nos jornais, diariamente, anúncios de meia página com letras enormes: CHARLES CHAPLIN - NO TEATRO COHAN- A 1 DÓLAR".
        Gastou mais de 30 000 dólares em publicidade e outros 30 000 pelo aluguel de um letreiro luminoso. O filme lhe rendeu 80 000 dólares por semana. Ficando em cartaz por 12 semanas, teve uma lucro acima de 400 milhões de dólares, enquanto no Teatro Paramount, defronte ao de Charles, a fita falada e apresentada por Maurice Chevalier, rendeu apenas 38 milhões de dólares. Luzes da Cidade muitas vezes é classificada como a maior obra de Chaplin. O crítico americano James Agee afirmou que a cena final foi a maior peça de representação e o momento mais elevado de quaisquer outros filmes já feitos.

Stills: City Lights
Descendo as escadas do cais em Luzes da Cidade
Charlie and Virginia Cherrill in a promo still for  City Lights
A florista e o Vagabundo

Cena de Luzes da Cidade
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                                                        Londres Novamente 

           Quando o filme estava para ser lançado em Londres, Charles foi para lá. Hospedou-se no Hotel Carlton, de onde, da janela, podia ver os cartazes, nas bancas de jornais exibindo: " CHARLES É AINDA O ÍDOLO DO PÚBLICO".
       Aquela viagem à terra natal foi também uma oportunidade de reviver o passado.Ele encontrou tempo e arranjou a coragem de visitar Hanwell indo à Escola de Crianças Órfãs e Indigentes,para  onde fora enviado com pouco mais de 6 anos e onde viveu, junto com Sydney, de junho de 1896 a janeiro de 1898.
            Segundo informações do Daily News ,ele entrou  no refeitório do asilo, onde havia cerca de 400 meninos e meninas que o aplaudiram. Usando o seu famoso truque, ele fez seu chapéu saltar magicamente no ar.Balançou sua bengala e caminhou com seu jeito inimitável. Era Carlitos quem estava ali! As crianças gritavam de alegria. E Charles estava amando tudo aquilo tanto quanto elas!     
       Chaplin falaria mais tarde a respeito dos sentimentos que ele gravou na memória sobre aquela visita." Eu não perderia aquilo por nada neste mundo. Deus, você se sente como um morto retornando à terra! Sentir o cheiro de sala de jantar e lembrar que foi onde você se sentou;  que aquele rabisco no pilar da coluna foi feito por você! É como se não fosse você, mas você em outra vida... como algo que você foi e agora não é mais. Como uma cobra que perde sua pele de quando em quando. E a pele que você perdeu  ainda guarda seu odor nela.Oh, foi maravilhoso! Quando eu cheguei lá, eu sabia que era aquilo que eu estava querendo havia anos. Tudo me levou àquilo e eu estava pronto para tal.Meu regresso a Londres em 1921 e meu retorno em 1931, foram suficientemente maravilhosos, mas  nada poderia ser comparado àquela entrada em Hanwell"...

          Placa em homenagem a Chaplin, no corredor da entrada
 do asilo de Hanwell

              Charles havia tomado um táxi para circular pela ruas onde vivera sua infância e juventude. "Estar entre os edifícios, conectado com tudo - com a miséria e algo que não era miséria... Veja você, eu realmente nunca acreditei que tudo estaria ali. Nada na América dura tanto tempo assim. E quando chegamos perto do local... todas as ruas  e lojas  e casas...
           E eu imaginava que elas haviam desaparecido e não sei o que eu teria feio se isto tivesse acontecido...Eu acho que teria voltado para  Hollywood. Porque eu fui ali para ver aquilo...eu nunca tive um momento como aquele na minha vida. Eu estava quase fisicamente doente com tanta emoção".
           A visita  à Europa  se transformou numa turnê mundial que se estendeu por longos meses, com Chaplin rsendo ecebido e aclamado em toda parte como uma celebridade social. Em Londres, encontrou-se com Bernard Shaw e foi apresentado a Winston Churchill e, em seguida, a Mahatma Ghandi.

Chaplin_and_bernard_shaw_1931_big
Chaplin conversando com Bernard Shaw
 (Estréia de Luzes da Cidade em Londres)

Sir Winston Churchil e Charles Chaplin

Charles e Ghandi

    Na estréia de Luzes da Cidade, chovia torrencialmente em Londres, mas o público compareceu fielmente e o filme também foi um enorme sucesso.
     "Não devemos esperar que nos embale por muito tempo a adulação do público", disse Charles, ao perceber que, apesar do sucesso de Carlitos nas telas, o público esfriara com relação a ele, Charles Chaplin. O primeiro sinal veio da imprensa. Charles estava axausto e precisando descansar. Quando se encontrava em Juan-les Pins, foi convidado para um espetáculo beneficente, patrocinado pela realeza, no Palladium de Londres. Em vez de comparecer, enviou um cheque de 200 libras, o que provocou um escarcéu.Consideravam que ele havia ofendido o rei e menosprezado a Ordenação Real. Charles não achou que o convite fosse um édito do Rei e, além disso, não estava preparado para se apresentar sob convocação em cima da hora. Algumas semanas mais tarde, quando se encontrava na quadra de tênis esperando um parceiro, um rapaz, dizendo-se amigo de um amigo, se apresentou a ele. Conversaram animadamente. Charles apreciava as pessoas que sabiam ouvir e aquele simpático rapaz escutou atentamente as narrativas dele em vários assuntos. Quando fez um comentário pessimista sobre a possibilidade da Europa estar a caminho de uma próxima guerra, o rapaz lhe disse:" Bem, se houver uma outra, não me pegam"! Charles comentou:" Não o censuro por isso. Não tenho respeito pelos que nos metem em complicações: detesto que me digam a quem devo matar e por que tenho que morrer ... e tudo em nome do patriotismo".
         Ao se despedirem, combinaram um jantar para o dia seguinte, mas o rapaz não apareceu mais. Na verdade, aquele rapaz era um repórter.No dia seguinte, a primeira página da imprensa dizia: " CHARLIE CHAPLIN NÃO É PATRIOTA"!
     Charles concordou  com aquela afirmção, mas ficou aborrecido por ver suas opiniões pessoais divulgadas nos jornais." De fato, não sou patriota - diria ele- e não somente por motivos morais ou intelectuais,mas também porque é sentimento que não possuo.Como tolerar patriotismo quando em seu nome foram assassinados 6 milhões de judeus?... Não posso vociferar por motivoss do orgulho nacional... Para mim, patriotismo é, quando muito, nutrido por hábitos locais, corridas de cavalos, caçadas, pudim de Yorkshire, hamburgers americanos e coca-cola; mas hoje em dia, essas coisas típicas podem ser encontradas em qualquer lugar do mundo. Naturalmente, se o país em que eu vivesse fosse invadido, creio que, como a maioria de nós,eu seria capaz de um ato de supremo sacrifício. Contudo, sou inapto a um fervente amor de pátria, pois bastaria que ela se tornasse nazista para que eu a abandonasse sem pesar... Não quero ser um mártir do nacionalismo, nem morrer por um presidente, um primeiro-ministro, um ditador"...
       Apesar de Luzes da Cidade ter sido um grande sucesso, com renda superior a de qualquer filme sonoro da mesma ocasião, Charles decidiu fazer outra fita muda, mesmo com receio de estar desatualizado. Algumas vezes pensava em fazer um filme sonoro. Mas à idéia o fazia crer que não conseguiria realizar algum trabalho à altura de seus filmes silenciosos. E teria que abandonar a figura de seu Vagabundo. Sugeriram que o fizesse falar, mas Charles não admitia essa idéia, pois a primeira palavra que ele dissesse, o transformaria em outra pessoa.
           De volta aos Estados Unidos, à sua casa de Beverly Hills, de onde se ausentara por 8 meses, Charles se sentia sozinho, confuso, inquieto e sem planos de trabalho. Mary Pickgord e DouglasFairbanks  haviam se divorciado e, assim, seu mundo afetivo estava ruindo.
           Caminhando pelas ruas, começou a pensar se não seria melhor deixar de vez o cinema, vender tudo e ir para a China. Nada o incentivava a ficar em Hollywood que , naquela época, passava por grandes transformações. Os astros de cinema mudo haviam desaparecido. Com o sucesso dos filmes falados, a terra do cinema perdera seu encanto e se tornara uma indústria fria e séria.Enquanto encenou o Vagabundo, Chaplin resistiu contra o uso de som em seus filmes. O Vagabundo tinha um público universal: se ele agora começasse a falar, essa audiência iria encolher para os países de língua inglesa. Além disso, todo mundo tinha sua própria idéia de como seria a voz do Vagabundo.No entanto Chaplin percebia que o seu querido personagem estava com seus dias contados e necessitava de diálogos.
         Por quase um mês ele vagou, solitário, pelas ruas de Hollywood, até que foi convidado por Joe Schenck, então presidente da United Artist, para passar um fim de semana em seu iate.Joe costumava levar vários convidados para este programa e Charles achou que poderia encontrar uma bela moça ali. E foi assim que conheceu Paulette Goddard.

Paulette Goddard
          Ela desejava investir parte do pensão que recebia do ex-marido na indústria cinematográfica.Mas, aconselhada por Chaplin a não investir em nada que não fosse seus próprios filmes, acabou desistindo da idéia. Começava ali uma a mizade. Ambos estavam solitários. Ela havia acabado de chegar a Hollywood. Não conhecia ninguém . Charles e Paulette costumavam dar longos passeios de automóvel pelo litoral da Califórnia. Não sabiam em que gastar o tempo. Gostavam de admirar as embarcações no porto de San Pedro, o que Charles considerava uma aventura excitante. Havia tempo que ele sonhava em comprar uma grande lancha a motor com 3 cabines e uma copa cozinha, encorajado por Paulette que lhe disse que se ele tivesse um barquinho como aquele, poderiam passar domingos bem agradáveis e até mesmo viajar a Catalina. Juntos, costumavam entrar na lancha, com a permissão do propietário, sempre que íam ao porto. Um dia, sem que ela soubesse, comprou a lancha e preparou-a para uma excursão a catalina, levando a bordo seu próprio cozinheiro e Andy Anderson que fizera o papel de policial nas fitas de Keystone e possuía habilitação de piloto.
        No domingo seguinte,Charles levou Paulette até o porto, mas desta vez ela se recusou a entrar no iate. Disse-lhe que fosse sozinho, pois se cansara de estar sempre entrando ali para olhar o que já conheciam tão bem. Mas acabou se deixando levar quando ele disse que seria a última visita para se decidir se deveria realmente fechar negócio com o proprietário. Quando Paulette entrou na lancha, a mesa da cabine estava coberta com toalha azul e rosa e , sobre ela, louça das mesmas cores. Da cozinha vinha um cheiro de comida. Paulette olhou para a copa e reconheceu o cozinheiro. O casal ficou a bordo da lancha por 9 dias.
        Casaram-se secretamente em 1936, no México.

Charlie Chaplin & Paulette Goddard

via http://www.liveauctioneers.com
Charles e Paulllete a bordo do Panacea, seu iate

     De repente, o desejo da fazer um novo filme. Aconteceu durante uma conversa com uma jornalista que o entrevistara, mencionou que visitaria Detroit, em Michigan. A jovem explicou-lhe como era o sistema de trabalho na linha de montagem de automóveis nas grandes fábricas dali, onde usavam jovens vindos do campo para trabalhar na grande indústria e de como estes se tornavam nervosos e estressados.
 Nascia ali a criação de Tempos Modernos.

Charlie in Modern Times
O operário em Tempos Modernos

               Paulette Goddard  interpretou o papel de uma jovem malandrinha,menina de rua, que  contracenava com Chaplin, o Vagabundo que tenta sobreviver no mundo moderno e industrializado.
        Tempos Modernos ( realizado de 1933 a 1936), ao mesmo tempo, comédia, drama e romance, é considerado uma forte crítica ao capitalismo, militarismo, liberalismo, conservadorismo, stalinismo, fascismo, nazismo e imperialis mo, além de ser uma crítica aos maus tratos que os empregados passaram a receber depois da Revolução Industrial. A partir deste filme, surgem as primeiras críticas de que o comediante estava vestindo o manto de filósofo.
         Foi, sem dúvida, uma hilariante comédia , uma acusação das desumanas condições dos empregados da linha de montagem de automóveis, tendo Charles interpretado um deles, levando seu vagabundo à loucura.

Stills: Modern Times
Na fábrica, em Tempos Modernos

        A seqüência de insanidade mental, artisticamente brilhante neste filme, foi também uma reprise dissimulada da experiência trágica da sua própria mãe ao se tornar psicótica enquanto suas forças eram emocional e fisicamente drenadas.

Paullete e Charles em Tempos Modernos

          Neste filme a voz de Chaplin é ouvida pela primeira vez na tela quando ele canta e dança num bar.

jsweetness17:

<3
Charles canta em Tempos Modernos

       Na época em que  os filmes sonoros estavam quase universalmente estabelecidos, Chaplin surpreendeu o público com esse filme, dando-lhes um novo presente: ele , sempre versátil atuando como produtor, diretor, escritor, diretor e estrela de seus filmes, agora se mostrava ,também, um compositor inspirado, cujo resultado foi a  melodia Smile  que entrou para sempre, para o repertório popular de todo o mundo.

 Carlitos pede a Gamine (Paullete) que sorria ( smile! ) na cena final
de Tempos Modernos
                 O filme recebeu críticas de que tinha tendências comunistas. Lançado em Nova York e Los Angeles, em sua primeira semana em cartaz bateu todos os recordes de bilheteria.
      Mas Charles havia decidido ficar longe de tudo o que se referia a Tempos Modernos e assim, partiu com Paulette e a mãe dela para o Havaí. Em Honolulu, viu grandes cartazes anunciando o filme. Viu também a imprensa, a sua espera, pronta para massacrá-lo.

    Voltando a Beverly Hills, Charles se perguntava se deveria insistir em fazer filmes mudos. Não queria dar voz ao seu vagabundo para não se tornar um comediante qualquer. Aos poucos via que estava se afastando de Paulette que fora contratada pela Paramount , sendo cedida a outras companihas quando requisitada. Sem idéias para criar um filme, Charles vaiaja com um amigo para o sul de San Francisco a fim de relaxar e recuperar sua criatividade.
       O cheiro de guerra estava no ar. Charles buscava criar um personagem para Paulette, mas não conseguia ir adiante. Por volta de 1937, um amigo sugeriu que ele fizesse uma história sobre Hitler, tendo como tema um erro de identidade, já que ele tinha o mesmo bigodinho do Vagabundo. Charles não deu muita importância à sugestão. Tempos depois teve a inspiração de fazer O Grande Ditador. Quando a produção estava pela metade, disseram-lhe que teria dificuldades com a censura do filme. Mas Charles achava que Hitler merecia ser escarnecido.
          Desde o advento de Adolf Hitler, jornalistas e caricaturistas de todo o mundo se impressionaram com as estranhas coincidências entre Chaplin - o homem mais amado do mundo - e Hitler, o mais odiado. Ambos nasceram , com diferença de dias, em 1889. Tinham semelhanças físicas e haviam adotado o mesmo estilo de bigode, embora o de Hitler fosse real, enquanto o de Chaplin era postiço. Era inevitável que Chaplin finalmente caricaturasse Hitler Mais tarde ele disse que ele tinha conhecido a realidade plena do nazismo e a perseguição dos judeus ele poderia não ter feito uma comédia dele; no entanto, comédia provou ser uma arma eficaz. O filme foi amado na Grã-Bretanha, que naquele tempo estava sofrendo a investida completa da Blitz. Nos Estados Unidos, onde ainda grassava o isolacionismo e simpatia pela Alemanha, o filme recebeu uma boa dose de desaprovação.
Carlitos, o barbeiro, capturado em
 O Grande Ditador

No papel de Hynkel,O Grande Ditador,
 sonhando em dançar com o mundo

      O filme exigia montagens complexas. Sua preparação se prolongou por um ano e durante este período, Charles recebia inúmeras cartas anônimas com ameaças de jogar bombinhas mal cheirosas nos cinemas e cortar a tela onde quer que o filme fosse exibido. Charles pensou em avisar a polícia, mas percebeu que isto poderia afastar o público.
       Na verdade O Grande Ditador não era uma comédia sobre a demência homicida dos nazistas, mas uma maneira de ridicuarização da idéia de pureza racial criada por Adolph Hitler. O filme foi lançado em dois cinemas de Nova York onde se manteve por 15 semanas e obteve a maior renda entre todos os filmes de Chaplin.
           As críticas da imprensa divergiam, sobretudo, no que que se referia à fala final. O Daily News dizia que Charles havia apontado para a platéia, o seu dedo comunista. Perguntado porque era tão contra o nazismo, Charles respondeu: "Porque o nazismo é contra o povo"! Em seguida desejaram saber se ele era judeu e ele respondeu que não era preciso ser judeu para ser anti-nazista. "Basta ser uma pessoa humana, decente e normal".
Antes do filme começar a ser feito, Charles e Paulette perceberam que a separação deles era inevitável Contudo, profissionalmente eles ainda estavam unidos. Em O Grande Ditador, ela interpretou a esposa de Chaplin. A seu personagem foi dado o nome de Hannah, uma homenagem de Chaplin à sua mãe. No momento do lançamento mundial de O Grande Ditador, em janeiro de 1940, nenhum dos líderes de mídia em Hollywood tinha tido a coragem de se pronunciar. Muito mais preocupados com o bem-estar dos seus investimentos e receosos de causar inimizades , instando o bem-estar do seu povo, os homens de negócios judeus optaram não alijar nem ofender a comunidade.(Contrariamente à crença popular, Chaplin não era judeu).
      Em boas mãos, a mordaz sátira política pode ser uma arma poderosa de propaganda. E como o maior comediante de todos os tempos, Chaplin era uma formidável influência. Muitos historiadores cinemtográficos consideram este filme a maior sátira política a um líder jamais feita no mundo, apesar das gritantes falhas artísticas que o tornaram bem menos do que uma obra de arte.O filme foi, financeiramente, bem sucedido.
    Abandonando a técnica tradicional de pantomima- e o seu Vagabundo-  para encenar dois personagens — o ditador e o barbeiro judeu - Chaplin usou sua voz pela segunda num filme. Seu discurso de encerramento, um fundamento artisticamente falho, mas emocionalmente sincero sobre a intervenção internacional contra a Alemanha nazista,ajudou a influenciar a opinião pública americana em favor de guerra - e também o levou a ganhar (nos arquivos do FBI), a designação oficial política de antifascista em potencial. Charles ganhou uma intimação para comparecer perante um Sub-Comitê de Anti-Guerra do Senado, em setembro de 1941. Eles queriam saber por que razão aquele" demagógico palhaço metido" se intrometia na política quando a América ainda estava em paz com a Alemanha.
      Logo depois do lançamento do filme, Paulette deixou um aviso a Charles, explicando que iria a Califórnia para fazer outro filme na Paramount. Charles foi espairecer em Nova york. Quando retornou a Hollywood, soube que ela já havia ido ao México para obter o divórcio, depois de 8 anos de vida em comum. Além de uma pensão considerável, Paulette Goddard ficou com  o Panacea, o iate de Charles.